Temática: Gastrulação
A gastrulação ocorre durante
a implantação do blastocisto no útero, e consiste na transformação da blástula em gástrula para
a formação do próximo estágio, chamado de GÁSTRULA.
A gastrulação varia na
dependência do tipo de segmentação da célula-ovo, mas há semelhança entre um
caso e outro. Vamos ver como exemplo, a gastrulação em embriões que apresentam
segmentação holoblástica, como o anfioxo. A gastrulação do anfioxo é
bastante simples: em um dos pólos, há crescimento mais acelerado, e as células
do outro pólo são empurradas para dentro, formando um tubo. Esse “crescimento
para dentro” é uma invaginação (fig. 1). O tubo formado é
chamado de arquêntero (ou intestino primitivo). O arquêntero possui
uma abertura chamada blastóporo.
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Fig. 1 – Redução do BLASTOCELE e formação do BLASTÓPORO de anfioxo (extraído e modificado de Gowdak & MATTOS, 1990). |
O esquema acima, mostra a
diminuição do volume do blastocele e a formação de um novo espaço, chamado de ARQUÊNTERO. A
blastocele pode diminuir muito a ponto de praticamente desaparecer. O arquêntero mantém
um orifício de comunicação com o exterior chamado de blastóporo.
Sendo o blastóporo um
orifício que comunica o arquêntero (também chamado de intestino primitivo) com
o exterior, ele tanto pode dar origem ao ânus quanto à boca, que são os dois
orifícios que, no adulto, comunicam o sistema digestório com o exterior. De
acordo com essas duas possibilidades os animais podem ser divididos em dois
tipos:
Protostômios - aqueles
nos quais o blastóporo origina a boca, ou a boca e ao ânus;
Deuterostômios - aqueles
nos quais o blastóporo dá origem somente ânus e nunca à boca.
Em alguns animais, na
gastrulação, as células do embrião separam-se em duas camadas denominadas de folhetos
embrionários ou germinativos: o hipoblasto (endoderme) e o epiblasto
(ectoderme). O epiblasto é a camada interna formada pelos micrômeros
e o hipoblasto é a camada externa que reveste o arquêntero, formada
pelos macrômeros. Os animais que apresentam apenas esses dois folhetos
germinativos são chamados diblásticos.
Os organismos mais
inferiores na escala animal, como espongiários e celenterados, têm o seu
desenvolvimento embrionário somente até essa etapa. Por isso, o seu corpo
revela apenas duas camadas de células, sendo qualificados como animais
diblásticos ou diploblásticos.
Os cnidários desenvolvem-se
a partir de dois folhetos embrionários, sendo, portanto, diblásticos. Com
o transcorrer do desenvolvimento embrionário, o arquêntero origina a cavidade
digestória do animal.
Em animais mais complexos, a
gástrula evolui para um novo estágio e ocorre a diferenciação de um terceiro
folheto germinativo que se dispõe entre a ectoderme e a endoderme, chamado mesoderme.
Os animais que se desenvolvem com mais esse folheto embrionário são chamados de triblásticos ou triploblásticos.
Em mamíferos, por exemplo,
na fase de gástrula ocorrem modificações no trofoblasto e no embrioblasto:
As células do embrioblasto diferenciam-se, como nos demais animais, em duas
camadas celulares, o epiblasto (ectoderme) e ohipoblasto (endoderme). Essas
camadas apresentam-se sob a forma de disco, que constitui o disco
embrionário. Posteriormente, as células da ectoderme se desenvolvem e
delimitam uma cavidade surgida entre as células da massa celular interna, a cavidade
amniótica. Abaixo da endoderme surge outra cavidade, o saco
vitelínico (ou vitelino). A presença do disco embrionário e das
cavidades que o cercam caracteriza o estágio de gástrula.
Depois de aproximadamente de
9 dias, o blastocisto já se encontra totalmente implantado no endométrio. O
endométrio cicatriza e recobre o blastocisto que fica totalmente “enterrado” no
endométrio formando um coágulo de fibrina.
Temática: Gastrulação -
Mesoderma e seus anexos
Nos mamíferos, a gástrula
não ocorre por embolia, como nos anfíbios, mas sim por epibolia. Nesse
processo, as células da ectoderme se dividem mais depressa que as células da
endoderme, obrigando o disco embrionário a tomar a forma de um balão.
Já que o embrião de
mamíferos cresce dentro do corpo da mãe, ele precisa de alguns anexos para
fazer o contato físico com a mãe e receber nutrientes. A placenta, que surgirá
do Trofoblasto, serve de conexão com o organismo materno. Entre o disco
embrionário e o trofoblasto surge um pequeno espaço chamado vesícula
amniótica que originará a bolsa amniótica ou âmnio. Abaixo do disco
embrionário aparece, por prolongamento de células endodérmicas, a vesícula
vitelínica (fig.1).
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Fig. 1 – Blastocisto humano em início de gastrulação, o pedúnculo embrionário originará o cordão umbilical, as vilosidades coriais vão formar a placenta (modificado de SOARES, 1997). |
Progressivamente, o disco
embrionário vai se recurvando por sobre a vesícula vitelínica, começando a
estrangulá-la. Assim, o disco assume a forma de um balão, com dois folhetos, e
caracteriza a fase de gástrula didérmica, no qual a boca desse balão é o
blastóporo.
Partindo do hipoblasto
origina-se uma camada de células denominadas membrana de Heuser que revestirá a
cavidade interna do blastocisto, que passa a se chamar cavidade vitelina
primitiva. Entre a cavidade e o citotrofoblasto surge uma camada de material
acelular, o retículo extra-embrionário.
Durante a gastrulação, em
animais mais desenvolvidos, é formado mais um folheto embrionário, chamado de mesoderma.
A origem do mesoderma é variável de acordo com o nível evolutivo da espécie em
questão. Em muitas, ele se forma a partir de uma porção dorsal do endoderma
denominada mesentoderma.
Nos animais mais complexos,
o mesoderma forma-se a partir do epiblasto (ectoderme), por
meio de um sulco, que aparece na parede dorsal do embrião na sua região mais
posterior, chamado de linha primitiva ou sulco primitivo.
Por meio da linha
primitiva, as células da ectoderme “mergulham” interpondo-se entre os dois
folhetos iniciais, levando ao surgimento do folheto intermediário, chamado mesoderma.
Alguns autores consideram
que só a partir da produção das células mesenquimais que formará o mesoderma, é
que a camada epiblástica passa a chamar-se ectoderma embrionário, e o
hipoblasto, endoderma embrionário.
Enquanto isto, por volta do
vigésimo dia, à cavidade celomática extra-embrionária aumenta
consideravelmente, e o embrião apresenta-se preso ao trofoblasto apenas por um
estreito pedúnculo, o pedúnculo embrionário. O pedúnculo embrionário é
formado pelo mesoderma extra-embrionário e contínuo com aquele que reveste a
superfície interna do trofoblasto. Este pedúnculo é preso pela extremidade
caudal do embrião e futuramente se transformará cordão umbilical que ligará a
placenta ao embrião.
No final da fase de gástrula,
observam-se grandes mudanças. Além do mesoderma, começa a surgir o celoma (cavidade
geral do corpo originada pela mesoderme) e o sistema nervoso.
Alguns animais, apesar de
serem triploblásticos, não formam o celoma, sendo chamados de acelomados (todos
os animais diblásticos são acelomados). A grande maioria dos animais
triblásticos, entretanto, desenvolve o celoma (celomados).
Alguns ainda, como os
nematelmintos, são triploblásticos, mas não possuem celoma verdadeiro. Neles o
mesoderma, adere ao ectoderma e afasta-se do endoderma, surgindo entre o
mesoderma e o endoderma um espaço que simula o celoma. Por isso, são chamados
de pseudocelomados.
Quanto à estrutura corporal,
os animais multicelulares (metazoários) triploblásticos podem ser classificados
em:
ACELOMADOS - Não possuem
celoma. A estrutura do corpo é maciça.
PSEUDOCELOMADOS - O
mesoderma não reveste toda a cavidade do corpo, mas tão somente a face interna
da parede corporal.
CELOMADOS - O mesoderma
reveste integralmente a cavidade geral do corpo.
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Fig. 2 – Corte transversal de acelomado (A); pseudocelomado (B) e celomado (C) – modificado de SOARES, 1997. |
Temática: Gastrulação – A
Formação do Celoma
Nas temáticas anteriores vimos
como a gastrulação ocorre durante a implantação do blastocisto no útero, em um
processo chamado de nidação. Neste processo, o blastocisto “cava” o
endométrio e se instala ali. Essa mucosa uterina escavada cicatriza e recobre o
blastocisto. Nessa fase ocorre a diferenciação em duas camadas celulares, a
partir do embrioblasto: ectoderme e a endoderme que se
apresentam sob a forma de disco e, juntas, constituem o disco embrionário. Posteriormente,
as células da ectoderme “mergulham” entre a endoderme e a ectoderme, dando
origem a terceira camada do folheto embrionário conhecido como mesoderme.
Por volta do 12º dia surgem
células que revestem o retículo extra-embrionário (mesoderma extra-embrionário)
que passarão a formar cavidades preenchidas por fluido e que posteriormente
serão unidas formando a cavidade coriônica. Ao mesmo tempo, o disco
germinativo, consiste das camadas germinativas ectodérmica e endodérmica,
sobrepostas. Na ectoderme, em frente à cavidade amniótica, começa a aparecer um
sulco na superfície do ectoderma, que fica bem visível a partir do 150 dia
após a fecundação, e passa a ser conhecido como linha primitiva.
A extremidade cefálica da
linha primitiva, conhecida como nó de Hensen, consiste de uma pequena
marca cercada por área ligeiramente elevada. Células ectodérmicas modificadas
invaginam pela região do sulco primitivo, num processo contínuo. Perto do 16º
dia as células do epiblasto continuam a proliferar e migrar em direção ao sulco
primitivo, no qual se invaginam entre o epiblasto e o hipoblasto, originando o
mesoderma intra-embrionário, que é o terceiro folheto embrionário.
À medida que mais células da
camada superficial (ectoderma) invaginam, forma-se o mesoderma
intra-embrionário, até tornar-se contínuo com o mesoderma extra-embrionário que
cobre o âmnio e o saco vitelino definitivo. As células da mesoderme preenchem
todo espaço entre a ectoderme e a endoderme, exceto na região da membrana
bucofaríngea e membrana cloacal (fig. 1).
O mesoderma
extra-embrionário. É representado por uma camada de tecido frouxo, formado
ainda na fase de blástula pelo trofoblasto (fig.1).
As células da mesoderme
preenchem todo espaço entre a ectoderme e a endoderme, exceto na região da
membrana bucofaríngea e membrana cloacal.
Observa-se, lá pelo vigésimo
dia, o pedúnculo embrionário, prendendo o embrião ao trofoblasto pela sua
extremidade caudal. Este pedúnculo dará origem ao cordão umbilical.
A medida em que a cavidade
coriônica se expande, ocorre a separação do âmnio e do citotrofoblasto. Na
vesícula vitelínica ocorre à proliferação do hipoblasto (endoderme) seguida de
constrição de parte da cavidade, que vai formar vesículas exocelômicas que se
destacam e são degeneradas. A porção da cavidade remanescente denomina-se agora
cavidade vitelina definitiva.
A formação do celoma se
dá após a formação do mesoderma, quando um grupamento de células laterais do
mesentoderma se expandem, formando duas bolsas que se insinuam entre o
ectoderma e o endoderma, separando-os.
Progressivamente, as bolsas
mesodérmicas se alargam, afastando bastante o ectoderma do endoderma. O
mesoderma que fica encostado ao ectoderma, juntamente com ele, constitui a somatopleura.
As partes do mesoderma que fica encostado ao endoderma, formam juntos a esplancnopleura. Entre somatopleura e esplancnopleura aparece,
então, urna cavidade ampla, que é o celoma (fig. 2).
A gastrulação é um evento
marcante no processo de desenvolvimento embriológico, pois converte a blástula
em um embrião bilateral que possui o plano básico do adulto. A conversão ocorre
por meio de movimentos morfogenéticos das células embrionárias. Como na
clivagem, o modelo da gastrulação é muito afetado pela quantidade e
distribuição do vitelo. Os folhetos germinativos, ectoderma, mesoderma e
endoderma tornaram-se evidentes durante a gastrulação.
Com a formação do celoma,
terminamos o assunto gastrulação, mas daremos continuidade à embriologia com o
tema neurulação.
Temática: Neurulação
Já vimos que, durante a
gastrulação, na região mediana dorsal do disco germinativo aparece uma leve
depressão que se inicia com o aparecimento de uma quase imperceptível estrutura
na linha média do disco bilaminar, chamada linha primitiva. Esse fato é um
dos eventos mais importantes da terceira semana de desenvolvimento humano. A
partir daí, são estabelecidos os eixos crânio-caudal, dorso-ventral e
direito-esquerdo.
A linha primitiva consiste
em células do epiblasto (ectodérmicas) que se invaginam e se expandem entre os
dois folhetos germinativos (epiblasto e hipoblasto), no qual formará o terceiro
folheto germinativo, o mesoderme. As células da mesoderme preenchem
todo espaço entre a ectoderme e a endoderme, exceto na região da membrana
bucofaríngea e membrana cloacal (fig. 1).
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Fig. 1 – Mesoderma se fechando na porção cefálica, mas não encobrirá a membrana bucofaríngea e nem a membrana cloacal. |
A membrana bucofaríngea e
membrana cloacal são bilaminares e se formam a partir da junção do epiblasto
com o endoblasto, antes da penetração do mesoderma.
Na porção mediana da linha
primitiva surge o sulco primitivo que termina em uma condensação celular chamada
da nó de Hensen ou nó primitivo, em cujo centro surge a fosseta
primitiva (fig.2).
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Fig. 1 – Mesoderma se fechando na porção cefálica, mas não encobrirá a membrana bucofaríngea e nem a membrana cloacal. |
Ainda no começo da terceira
semana, por volta do décimo-sexto dia de desenvolvimento, células do epiblasto
começam a se proliferar ao longo da linha primitiva, achatam-se e se colocam
entre o epiblasto e o hipoblasto. À medida que se invaginam pela fosseta
primitiva (conduto que fica no meio do nó de Hensen), as células
migram ao longo da linha média no sentido a região cefálica. As células que
permanecem na região cefálica formam duas estruturas: uma massa compacta de
mesoderma cranial (mesoderma da região cefálica) denominada placa
precordal e um denso tubo situado na linha média do disco germinativo, o processo
notocordal (fig. 3).
O processo notocordal é
um tubo oco derivado de células epiblásticas (do ectoderma) que penetraram
diretamente pelo nó primitivo (nó de Hensen) e estendem-se em direção a região
cefálica do disco germinativo, entre o ectoderma e o endoderma, mas
que não fazem parte do mesoderma. O processo notocordal quando
totalmente formado vai do nó primitivo à placa précordal e induzirá a formação
da placa neural, primeira etapa na formação do sistema nervoso. Assim, como se
observa na figura 3, a linha média que vai da fosseta primitiva até a placa précordal,
não é ocupada pelo mesoderma e sim pelo processo notocordal.
Entre o meio e fim da
terceira semana do desenvolvimento embrionário humano, o processo
notocordal sofre uma série de transformações que o convertem de um tubo
oco a um bastão celular maciço. Durante esta conversão, a parede ventral do
processo notocordal funde-se a endoderme e degenera-se gradativamente e forma
temporariamente uma comunicação entre a cavidade amniótica e a cavidade
vitelínica, chamada de canal neuroentérico (fig. 4).
O processo notocordal então
passa por transformações: o tubo oco em que consiste o processo notocordal
abre-se ventralmente, e toma forma de uma barra achatada encontrada na região
mediano-ventral do embrião. Assim, o processo notocordal transforma-se
em placa notocordal. A placa notocordal, por sua vez, dobra em torno de
si, para formar a notocorda. A notocorda forma o eixo primitivo do embrião em
torno do qual se constituirá o esqueleto axial. Em um embrião com cerca de 20
dias, a notocorda estende-se da membrana bucofaríngea até o nó primitivo.
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Fig. 5 –Disco embrionário visto dorsalmente, evidenciando a placa neural, que é um espessamento do ectoderma anterior e o sulco neural, .que é um aprofundamento medial na placa neural. |
Na placa neural, forma-se um
sulco longitudinal mediano; o sulco neural. Nos dois lados desse sulco,
emergem as pregas neurais. Por volta do 21º dia de desenvolvimento, as
pregas neurais da região média do embrião se juntam e funde-se em direção a
região cefálica e caudal, originando o tubo neural, as pregas que
permanecem abertas formam o neuroporo anterior e posterior (fig. 6).
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Fig. 6 – Desenho esquemático da fase de neurulação (A – visão dorsal; B - corte transversal).
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As células da parte superior
das pregas neurais se diferenciam em células da crista neural.
Essa crista neural se divide em duas porções celulares que dão origem aos
gânglios sensitivos dos nervos cranianos e espinhais e a várias outras
estruturas. Enquanto isso, o tubo neural aprofunda-se e se espessa mantendo uma
luz estreita, o canal medular. O tubo neural, por sua vez, dá origem,
ao encéfalo e à medula espinhal, componentes do sistema nervoso central. Nessa
etapa do desenvolvimento, o embrião passa a chamar-se nêurula e o
desenvolvimento da placa neural e o seu dobramento para formar o tubo neural é
chamado neurulação.
Em peixes, anfíbios,
répteis, aves e mamíferos, a notocorda vai sendo gradativamente substituída por
tecido ósseo, que formará a coluna vertebral. Com a formação da coluna
vertebral ocorre o englobamento do tubo neural, a futura medula raquidiana ou
espinhal.
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